Projeto Escrevivendo

Precisamos falar sobre Guy Sérgio Haroldo Estevão Zózimo Barrozo de Almeida

ensaio reportagens & perfis    

O Jornal, April 28, 2015

Sobre o filho único do poeta e jornalista Guilherme de Almeida
Por Karen Kipnis

 

O homem gorducho e meio esquisito desce do carro amparado por Laudelino, o motorista. A mãe, muito chic, mas em cadeira de rodas devido a um recente AVC, só poderia, agora, apoiá-lo da forma que pode: financeiramente. Não sei se foi visitá-lo, e quantas vezes, nos últimos 15 anos.

 

Um acordo havia sido firmado para a permanência de Guy naquela comunidade até o final de seus dias. O filho, separado; ela, nestas condições: não poderia haver melhor lugar para cuidarem de seu “nenezinho”, concordaram parentes e amigos mais íntimos. Alfredinho Mesquita e Ana Maria Revoredo Nogueira, que a acolheu em seu confortável apartamento duplex na Praça da República, quando Baby adoeceu, foram alguns deles.

 

Com lágrimas discretas, despediram-se sem muitas palavras: primeiro, porque a mãe estava com sério problema de fala devido ao acidente vascular; depois, Guy, que já não era de muitas palavras, estava inibido diante dos novos rostos e vozes que se apresentavam. Em todo caso, por um átimo o homem sentiu um arrepio na espinha e um sentimento volátil de poder-vir-a-ser-tudo-o-que-se-sonhar.

 

Infância

Um gosto de amora

Comida com sol. A vida

Chamava-se “Agora”.

 

Da janela, inspirou esperança a perder de vista nos 40 hectares de área construída ao redor. Lembrou-se de Campos do Jordão, do cheiro da casa dos avós no Rio de Janeiro, sua cidade natal, e associou, por algum motivo, o cheiro a um tempo, cantarolando Moreninha da Praia, de Almirante, “a mais alta patente do rádio”. Ainda sem piscar, percorreu a casa de Santo Amaro, a casa da rua Pamplona e a casa do Pacaembu, até pousar o pensamento em seu casamento com a jovem que conheceu numa quermesse do aristocrático Clube Paulistano, e de quem pode se separar apenas após a morte do velho. Novamente sentiu-se vulnerável.

 

Histórias de algumas vidas

Noite. Um silvo no ar.

Ninguém na estação. E o trem

Passa sem parar.

 

Vulnerável e inseguro, como quando aluno do Colégio São Luiz: gostava mesmo era de trocar selos com o amigo Paulo Bomfim; como quando esteve no Tiro de Guerra, instituição militar do Exército Brasileiro na qual foi obrigado a se alistar; e idem com relação ao emprego na Cerâmica São Caetano, empresa do amigo da família, Roberto Simonsen, que, por consideração ao pai, arrumou-lhe uma ocupação. E não pode, sua honestidade não permitiria, por D’s que não pode – mesmo – calar-se diante do... e... foi demitido.

 

Em sua vida, quase tudo comme il faut. Vulnerável como quando, já adulto, atiraram-lhe água por uma janela do segundo andar.

 

Mas, na “cidade dos loucos”, acreditava-se que ele teria finalmente paz e, com o ajuda de tratamento médico e de Nosso Senhor Jesus Cristo, poderia viver um happy end. E, sim, como era de se supor, apesar da falta de habilidade social, Guy foi, com o passar do tempo, desenvolvendo amizades, imaginárias ou não - como, aliás, o são, de um modo geral. Chegou mesmo a ser popular, pois os casos que contava eram mesmo i-na-cre-di-tá-veis.

 

Seu avô materno, Zózimo Barrozo do Amaral, membro do Clube dos Engenheiros do Rio de Janeiro, foi um dos privilegiados que, em 1925, esteve presente na palestra proferida por Albert Einsten, naquela cidade, no ano em que o grande matemático deu um giro pela América Latina.

 

 Anos 20: Einstein no Rio de Janeiro

 

Do importante engenheiro à época do prefeito Francisco Pereira Passos, soube que este avô também fora muito cruel, tendo se separado, num tempo em que ninguém se separava, da esposa (uma inglesa que foi parar no Ceará) e a afastado dos cinco filhos do casal: Baby, Maria Henriqueta, Boy, Dodô e o pequeno Miguel. Baby, sua mãe, a filha mais velha do casal, contava então com apenas 11 anos de idade.

 

Da inglesa Georgetta Tupper Barrozo do Amaral, contou que ela já tinha uma filha, Zuleika, quando casou com o avô nordestino. Mas não quis desviar o assunto, dizendo que isto não era o mais importante. O que o havia sempre intrigado era a sua “linhagem europeia”, a dos Tupper, oriundos da Ilha de Guernsey, no Canal da Mancha. O próprio Victor Hugo confessou-lhe que foi justamente na casa de seus ancestrais, a Hauteville House, que vivera durante seu exílio, quando fugia de Napoleão III.

 

Ainda sobre este lado de sua família, contou para a roda que se formava ao seu redor, na hora do banho de sol, que seu tio mais velho, Zózimo Barroso do Amaral Filho, o tio Boy, então magnata que dava suas “esticadinhas” na noite carioca – seria o pai do seu primo jornalista (este sim, inteligente e bem sucedido) de O Globo e, mais tarde, do Jornal do Brasil, Zózimo Barrozo do Amaral. Já a tia Elsa Peixoto, esposa do tio Boy, era prima do grande cineasta e roteirista Mário.

 

 

- Qual Mário?

 

Ora, até para os mais criativos, era Guy que já estava passando do Limite (1930).

 

Os enfermeiros se entreolharam quando, na sala de jogos, Guy revelou que “havia sido” sobrinho de Assis Chateaubriand, um dos homens mais influentes do Brasil nas décadas de 1940 e 50; dono de um império jornalístico - os Diários Associados -, que chegou a reunir dezenas de jornais, revistas e estações de rádio. Como se não bastasse, este tio também teria sido pioneiro da televisão brasileira, criando a TV Tupi em 1950. Reparem: Guy cuidou de usar o verbo no passado, pois o desgraçado havia se separado da tia Maria Henriqueta há muito tempo, deixando-a só com o pequeno Fernando. Off the records, confidenciou certa vez ao espelho que Chatô fora uma “ca-val-ga-du-ra” com a tia, segundo Baby.

 

 Guy e família. Foto de aproximadamente de 1925, com o poeta Guilherme de Almeida no canto esquerdo de braços cruzados, Baby ao lado do pai Zózimo Barrosso do Amaral que segura Guy no colo. Ainda na imagem, ao centro e atrás de braços cruzados, Assis Chateaubriand

 

 

 

Chuva de primavera

Vê como se atraem

nos fios os pingos frios!

E juntam-se. E caem.

 

Em 1993, perto de completar 69 anos, mostrou apenas para a japonesinha, sua namorada, a carta que nunca mostrara a ninguém, missiva que a mãe lhe enviou quando era ainda menino: prova irrefutável de ser quem é ou tenha sido. O documento deve datar do período em que o pai esteve exilado em Lisboa, quando expulso do país por determinação de Getúlio Vargas, logo após sua participação na Guerra Civil de 1932. Então, Guy contava com mais ou menos oito anos e estava no Rio de Janeiro, sob os cuidados de tia Chiquita.

 

Carinhosamente apelidada de “mamainha”, tia Chiquita foi a tia de Baby que (com o juiz Mello Mattos, seu esposo) criou, durante oito anos, entre a França, Inglaterra e Portugal, os cinco filhos do irmão engenheiro: aquele que disse aos filhos que a mãe, Georgetta, estava morta, quando descobriu-se traído.

 

“Vou mandar logo as injeções e o remédio”, lê em voz alta para a moça, no papel amarelado. “A casa parece um cemitério sem você, estou fazendo o possível para que volte logo, meu nenezinho. Saudades e beijos também no vovô, na mamainha, nos tios Dodô e Miguel, tias Elza e Maria Henriquetta e no Fernandinho. Seja sempre educado e porte-se como um lord: assim, será capaz de ir até para a Inglaterra! Mil beijos, saudades, mamãe”.

 

Emocionado, muda de assunto e explica que o advogado e juiz Mello Mattos, o “vovô” a quem Baby se refere na carta, foi o jurista José Cândido de Albuquerque Mello Mattos primeiro juiz de menores do Brasil; o Código Mello Mattos foi um marco jurídico-institucional no Brasil.

 

O apego a estas infinitas informações sobre sua origem e sua família era importantíssimo para Guy, pois o manteve, de certa forma, ligado a uma realidade da qual receava perder o contato.

 

Da tia-avó Chiquita, contou que era uma mulher muito boa e muito católica, mas que, todavia, adorava mandar indiretas sobre a inglesa para as crianças. Por exemplo, cismava em implicar com a altura e com o tamanho do pé da menina Baby, dizendo que pé grande era coisa de “estrangeiros”. Tanto é que minha mãe sempre foi obrigada a usar sapatos apertados para diminuir o pé. Ela me contou que, no Natal e no aniversário, sempre pedia um sapato que fosse exatamente do tamanho de seu pé.

 

Quiriri

Calor. Nos tapetes

tranquilos na noite os grilos

fincam alfinetes.

 

Depois de um longo silêncio, continuou: não me explicaram direito, e não sei se existe relação, mas ela teve um problema de saúde durante minha gestação, algo como infecção gravídica, ouvi comentarem, mas ouvi outras histórias também. Como era muito religiosa, nem cogitou fazer um aborto, como os médicos lhe aconselharam. Eu demorei muito para começar a falar e ela tentava me ensinar escondido do papai, era nosso segredo. Ironicamente, quem terminou seus dias sem falar, foi mamãe.

 

O pai do meu pai, continuou, que faleceu quando eu tinha apenas dois anos, foi um verdadeiro self made man. Estevão de Almeida, filho de imigrante português, apesar de ter tido uma infância muito pobre no Rio de Janeiro, chegou a se destacar não apenas como aluno, mas também como professor, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. A cadeira número 15 que vovô ocupou na Academia Paulista de Letras, desde sua fundação, em 1909, posteriormente foi ocupada, em 1928, pelo “imortal” poeta, jornalista, advogado, critico de cinema, heraldista e tradutor Guilherme de Almeida: seu próprio filho...e meu próprio pai.

 

Da avó Angelina Monteiro da Silva, nascida em Campinas, pouco lembrou naquela tarde tempestuosa, apenas que foi doce e bela como uma rosa.

 

Caridade

Desfolha-se a rosa:

Parece até que floresce

O chão cor- de- rosa.

 

No Instituto Américo Bairral de Psiquiatria, em Itapira, todos estes personagens desfilaram na memória do anti-heroico e anônimo filho de Guilherme de Almeida, este último honrosamente sepultado no Mausoléu aos Heróis de 1932, o Obelisco do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Os versos inscritos no monumento, também estes são de autoria do pai, que veio a falecer aos 79 anos, em 1969: “viveram pouco para morrer bem, morreram jovens para viver para sempre”.

 

Entre chás, cocktails e jantares, os pais de G. S. H. E. Z. B. de A. foram festejados pela elite social e cultural de São Paulo, tendo sido muito retratados e, algumas vezes, presenteados por amigos pintores como Di Cavalcanti, Anita Malfati, Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Reis Junior, Noêmia Mourão, Samson Flexor e Waldemar Cordeiro.

 

Como se supunha, a “casa da colina”, no Pacaembu, para onde a pequenina família se muda em 1946 (então Guy era solteiro e contava com 22 anos), já apresentava vocação para galeria ou museu, o que veio a se confirmar em 1979, quase uma década de burocracias depois da morte do poeta: tempo para a compra (pela Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo) e venda do patrimônio.

 

 Baby, Guilherme e Guy

 

Reaberto em 2010, vestígios da existência do filho único do casal, aos olhos do público, não se nota nem nas paredes, nem nos corredores, nem nos cômodos nem nos objetos do museu. Nenhum quadro entre os retratos dos pais, nenhum caderno ou brinquedo. Nenhuma marca no cômodo que fora seu quarto de dormir até o dia de seu casamento.

 

Como teria, Baby, deixado dispostos os objetos de sua casa pela última vez antes de entregar suas chaves e parte de sua vida ao Estado? Qual narrativa desejou imprimir na memória modernista de São Paulo? Como se reinventaria, curadora de si própria? O que teria eleito e levado consigo?

 

Nada do filho na sala de estar, nada na sala de leitura, nada na sala de jantar, nada no jardim de inverno, nada na mansarda, nada no hall ou no quintal. Haveria, ou teria havido, alguma crônica, conto ou soneto, canção ou iluminura, um poema em verso livre, um haikai, uma linha?

 

Ao lado da cama do casal, distraída exceção, uma fotografia do filho, então com dois ou três anos, denuncia um passado obscuro.

 

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Notas da autora: 

 

(I): um dos filhos de Georgetta, o tio Geraldo, o Dodô, nunca acreditou na história de que a mãe havia morrido. Quando retornou ao Brasil, no início dos anos 20, depois da longa temporada na Europa, aos 12 anos, este filho a procurou e a encontrou. Mas não contou nada a ninguém. Como a mãe estava pobre, e eles eram ricos, tio Dodô “perdia” tudo que ganhava, como dinheiro, abotoaduras, prendedores de gravata, ou qualquer coisa que tivesse valor e que pudesse vender para ajudar a mãe. O segredo se manteve por muitos anos, até que, finalmente, a mãe pode reencontrar seus outros filhos também.

 

(II): os haicais salpicados nesta narrativa são de autoria de Guilherme de Almeida e foram publicados em Poesia vária, em 1947.

 

 

Karen Kipnis é formada em Letras Português/Hebraico pela Universidade de São Paulo, licenciou-se na Faculdade de Educação após algumas velejadas e alguns anos vivendo em Israel. De volta ao Brasil, reencontra o poeta e amigo Frederico Barbosa, agora diretor da Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura (2005) e, a seu convite, coordena e ministra o Projeto Escrevivendo – oficinas de escrita e leitura para o cotidiano, entre 2006 e 2012, em espaços culturais como museus e bibliotecas da cidade da São Paulo. Neste ínterim, Karen e Frederico idealizam e fundam a OS de Cultura Poiesis com outros profissionais da Casa (2008). Coordenou o Núcleo de Ação Educativa da Casa das Rosas e do museu Casa Guilherme de Almeida e, finalmente, entre 2013 e 2014, foi bolsista da Poiesis no curso de pós-graduação em Jornalismo Literário da ABJL, coordenado pelo Prof. Dr. Edvaldo Pereira Lima. 

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