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CARTA DE AMOR DA GERALDA (Uma amor cansado, mas ainda não esgotado) Por Samia Schiller

 

São Paulo, 24 de Março de 2011

 

Oi, Antonio, como está tudo por aí? Nosso filho tomou jeito?

Estou escrevendo esta carta para avisar que estou chegando, e aí estando, vou pôr em pratos limpos o que andam dizendo de nós dois.

Tu foi embora em novembro e até agora nunca que me telefonou. Sou sempre eu que procuro por vocês. Isso já me deixa aperreada e saudosa de você e do nosso filho. Como se não bastasse, ainda tenho que ouvir conversa: “Tonho disse isso...Tonho disse aquilo”. Olhe, isso não se faz com ninguém, ainda mais comigo, sua companheira de tanto tempo. E tu sabe tudo que enfrentei para a gente ficar junto.

Se eu não fui ainda morar com vocês, foi porque a Dersa não acertou o dinheiro da desapropriação da nossa casa. Não vou abandonar ela assim, ao Deus-dará. O terreno pode ser irregular, como eles dizem, mas o tijolo e o cimento não. Sei o quanto me custou comprar tudo e a demora que foi para te convencer a levantar as paredes. Tu se alembra à noite em que mudamos para lá? São noites como aquela que fazem tu valer meu esforço.

Eu num tenho mesmo vontade de voltar pra Alagoas. Desde que vim morar em São Paulo, nunca que quis voltar pro Norte. Aqui nós pode mais. Querendo se arranja trabalho e nosso filho pode terminar os estudo. Só que também sei, que você deixou o nordeste, mas o nordeste não saiu de tu. Por isso, vou largar emprego, minha família e minhas coisas só para ficar mais tu e nosso menino.

O que não pode, é eu ouvir as notícias que tão chegando daí. Ontem mesmo, Dirce me contou que você disse, que se eu não fosse pra aí, por você tudo bem, cada um segue seu rumo. Tu quer terminar um casamento de 20 anos assim, pela boca dos outros, é isso?

É mulher, não é? Me disseram que você encontrou um cacho antigo seu, verdade? Sei como é homem nordestino e entendo, mas não gosto. Tu sabe que já te dividi com outra mulher por oito anos. Tu dizia que já tava acabado o casamento, mas que tinha dó de abandonar o menino. E nesse tempo ainda nasceu mais um, quase junto com nosso filho. E nem assim te deixei, acreditei que nós dois junto era o certo do destino. Quando Valdelice te largou, acabei criando seus dois filhos mais o nosso. Criei tão bem que eles me chamam de mãe, e no final, são os dois que me fazem companhia, enquanto tu e nosso filho estão por aí, cozinhando minha saudade.

Olhe, não se esqueça que mulher nenhuma cuida de tu como eu. Nenhuma delas adivinha o que tu gosta e te regala como eu. Se elas parecem fazer tudo do meu jeito e do teu gosto, saiba que é a ilusão da distância. Quando a gente tiver juntinho tu vai se lembrar de tudo, visse?

Estou mandando notícias por carta porque já faz é tempo que tu não atende o celular. Esqueceu de pagar, não foi? Pois, então, chego aí, em Alagoas, no dia 16 de abril, já de mala e cuia. Vendi nossas coisas, vou deixar Robson e Ronaldo cuidando da casa e avisei as patroas que estou indo e não sei se volto.

Já estou chegando para acertar toda nossa vida, como sempre. E provar que um casamento de 20 anos não termina fácil e nem por recado.

Saudade de você e do nosso filho,

Geralda.

 

Samia Cristina Schiller 

www.cronicasdeumasombra.blogspot.com

 

 

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Tags: cartas, escrevivendo, escrita, leitura, oficina

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Comentário de Karen Kipnis em 15 maio 2011 às 14:14

"Realismo fantástico" rsrsrsrsrsrsrsr

E vc, Indra, estará conosco em agosto? Bj,KK

Comentário de Samia Schiller em 15 maio 2011 às 9:22

Olha, Indra, nem tudo é verdade.

Eu queria escrever sobre um amor teimoso, em que a pessoa insiste no outro, apesar de tudo. Coicidentemente, minha faxineira ia embora para Alagoas atrás do marido. Largou tudo sem saber como seria recibida já que ele não atendia os telefonemas. Já viu, né? Casou direitinho com o que eu queria.

Mas, respondendo a sua questão...Minha amorosa faxineira viajou mesmo, só levando um cachorro de 16kg em um ônibus clandestino que foi o único meio de transporte que topou levar o "latinha". Ela está tentando se acostumar a nova vida, pretende abrir uma pequena padaria e fazer vista grossa para as escapadas do marido, pelo menos, por enquanto.

 

Comentário de Indra Barrios Lasso em 8 maio 2011 às 16:24

Samia, gostaria muito de saber o desfecho dessa história!!! Beijo! Indra

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