Projeto Escrevivendo

"Como falar de livros que não lemos" primeiro encontro Projeto Escrevivendo na Casa das Rosas ( 07/08)


"O Filósofo lendo", Rembrandt, 1631

Em primeiro lugar, uma explicação: este módulo do Projeto Escrevivendo- inspirado no livro/ensaio/ depoimento de Pierre Bayard " Como falar de livros que não lemos" que teve largada, na Casa das Rosas, no último sábado dia 7 de agosto, pretende provocar reflexão sobre um tema tabu em nossa 'sociedade do conhecimento' : maneiras de não ler. Importante dizer que Bayard é professor de literatura francesa na Universidade de Paris e psicanalista. Para o autor, " a não-leitura não é a ausência de leitura. Ela é uma ação verdadeira, que consiste em se organizar em realação à imensidão de livros, a fim de não se deixar submergir por eles. Por isso, ela deve ser defendida e até ensinada".

As maneiras de não ler ( LD, LF,LO,LE), segundo Bayard, serão apresentadas e discutidas no próximo sábado.

Após as apresentações dos novos e antigos escreviventes; e das mediadoras Gabriela Rodella e Karen Kipnis, tivemos a aportunidade de ler o seguinte texto do poeta e professor Frederico Barbosa para iniciarmos uma conversa sobre leitura, literatura e cânone literário:

Por que ler?
Frederico Barbosa - 18/02/2010

Muitas campanhas são feitas, no Brasil, para incentivar a leitura. No entanto, antes de nos perguntarmos como fazer os brasileiros, principalmente os mais jovens, lerem mais, temos que nos questionar sobre o significado da leitura em si. Se indicamos a leitura aos nossos jovens, é porque queremos que a tomem como hábito. Logo, consideramos o ato de ler uma prática salutar e recomendável. Até aí, isso pode parecer óbvio. Mas vejamos como começamos a patinar quando nos perguntam: mas afinal, por que ler é saudável? Por que ler faz bem?

Alguns professores e muitos defensores da leitura terão respondido, seguindo a ideologia romântica de Castro Alves ("Bendito o que semeia ideias a mancheias e manda o povo pensar"): porque, lendo, o jovem adquire conhecimento e pode almejar um futuro melhor na vida, quiçá até ascender socialmente... Será?

Como incentivar a leitura numa sociedade que não lhe dá, na prática, o menor valor? Certo, o Brasil não é um país de leitores. Nunca o foi. Poucos foram os momentos em que a literatura conseguiu atingir, entre nós, um público mais amplo do que um pequeno grupo intelectualizado e fechado. Mesmo os nossos mais celebrados e consagrados escritores, como Gonçalves Dias, Machado de Assis ou Carlos Drummond de Andrade, foram e continuam sendo lidos apenas por uma pequena elite mais interessada e informada.

A maior parte dos leitores dos clássicos da nossa literatura parece estar reduzida, hoje, a colegiais que apenas os leem para cumprir uma enfadonha tarefa escolar. Leem obrigados, pela nota, e não pelo prazer da leitura.

Grandes criadores de ficção, como Machado de Assis, José de Alencar ou mesmo o próprio Monteiro Lobato, transformam-se, na escola, em verdadeiros monstros, ainda que sagrados. Viram sinônimo de tortura, de chatice, de leitura imposta e cobrada. Um monstro é sempre um monstro: assustador. Um ser sagrado não deve ser tocado, curtido, lido. Deve ser reverenciado à distância, no altar ou na estante — intocado e fechado.

Perde-se de vista que um Machado ou um Alencar, que sempre procuraram deleitar e divertir os seus leitores, escreviam para serem consumidos, não para serem reverenciados. Para que o leitor se aproxime de um clássico, sem medo e sem reservas, é preciso que saiba que nem sempre foi um clássico. Muitas vezes foi um livro revolucionário e polêmico. Alguns foram até obras extremamente populares no seu tempo, como as peças de Shakespeare, que chegou a ser acusado, por seus contemporâneos, de ser um escritor apelativo e popularesco.
Aquele que, ainda que muito bem intencionado, procura estimular a leitura de clássicos afirmando que são “fundamentais para se adquirir cultura” não tem, ele mesmo, qualquer prazer na leitura. Como pode querer estimular alguém a ler? Nas palavras do professor Sírio Possenti: "Na escola, praga mesmo é o professor que não lê. Quem não lê não sabe o que está perdendo, e, portanto, não tem por que aconselhar ou criar oportunidades para que outros leiam."(1)

Transformar os clássicos em “monstros sagrados”, em “altares do saber”, só pode afastar os jovens. Ler Camões para se fazer análise sintática, ou, como o fazem os destruidores de leitores mais modernos, Machado de Assis para analisar a conjuntura capitalista de sua época, só pode “enojar” qualquer leitor.

No entanto, a sociedade brasileira substituiu, nas últimas décadas, a leitura enfadonha e autoritária (porque mal dirigida) dos clássicos pela leitura superficial e inconsequente da literatura infantojuvenil ou dos best-sellers acéfalos que dominam o mercado. Foi de mal a pior. Ainda segundo Possenti, “Os livros infantis em geral oferecem menos do que a criança já tem, numa forma menos interessante do que os próprios leitores já conhecem. A linguagem repetitiva e supostamente clara e simplificada só pode merecer dos leitores mirins o desprezo."(2)

De que adianta formar leitores de subliteratura, dos manuais de autoajuda, das narrativas lineares e moralistas ditas “espíritas” e de tantas outras formas apelativas e fáceis de sedução do leitor inocente? A leitura de tais obras em nada acrescenta aos seus leitores. A leitura por si só não faz alguém crescer ou pensar. Basta lembrar do quanto lemos exatamente para não pensar: para passar o tempo, para reforçar nossas ideias, para nos distrairmos. Boa parte do sucesso de escritores como Paulo Coelho se dá exatamente porque eles apenas reafirmam, com ares de grande descoberta, o óbvio mais ululante, o lugar-comum que, de tão evidente, torna-se mesmo incontestável e, portanto, cria um elo imediato entre os leitores e o autor, já que os primeiros concordam totalmente com as colocações, irrefutáveis de tão evidentes, do autor.

É uma total ilusão crer que os leitores de Paulo Coelho irão se transformar, um dia, em admiradores de Machado de Assis ou James Joyce. Sem provocação, sem estímulo, nunca irão. Não basta ler muito para ler bem ou para sofisticar o gosto. É possível sim, com a imensa oferta que há no mercado, passar toda a vida lendo apenas a literatura mais apelativa e indulgente. Sem uma mediação eficiente que estimule a passar de um tipo de leitura a outros, este passo simplesmente inexistirá.

Deveríamos voltar aos clássicos sim, mas fazendo deles uma leitura alegre, criativa e estimulante. Será tão difícil ler Sófocles? Que adolescente não há de se fascinar pelo drama de mistério que é Édipo Rei? Que adolescente de hoje não se identificará com os conflitos familiares de Antígona? Que adolescente não entenderá as oscilações de humor de Hamlet, ou rirá com A Megera Domada? É preciso lembrar, de novo, que Shakespeare foi um poeta popular, assim como Sófocles, o Goethe do Werther, Alexandre Dumas, Victor Hugo, José de Alencar...

Creio que o mediador de leitura, deve, em primeiro lugar, procurar conhecer bem seu público, observar o seu grau de maturidade para a leitura, seus interesses, seus preconceitos etc. A partir dessas informações, deve escolher obras que possam estimular o interesse e a curiosidade dos envolvidos. Nunca recomendar um livro apenas “por ser um clássico”, mas porque esse “clássico” pode contribuir para que os leitores se tornem mais maduros, mais interessados, menos preconceituosos; em suma, melhores. Não creio que existam livros “impossíveis”, há aqueles que são, de fato, muito difíceis para leitores muito jovens, por requererem, além da maturidade de leitura, conhecimentos de mundo e da própria literatura que eles ainda não têm. Por outro lado, um livro “difícil” pode sempre, dependendo muito de como for trabalhado por um mediador eficiente, tornar-se um estímulo para que o jovem procure aprender mais.

Assim, não parece existir uma idade certa para ler um clássico. Não podemos fazer generalizações neste campo, já que tudo depende somente da individualidade do leitor. Generalizações nesse (e em qualquer) campo são muito perigosas e tendem a ser um tanto autoritárias. Podem, e frequentemente o fazem, afastar o leitor jovem de livros que lhe poderiam ser fundamentais. Não acredito que a questão seja exatamente de idade, e sim de maturidade para a leitura. Digo maturidade para a leitura e não “do leitor” porque tendem a ser coisas diferentes, embora muitas vezes correlatas. Por maturidade para a leitura, entendo a capacidade de observar os jogos e as sutilezas de um texto e, portanto, sentir prazer na leitura. A capacidade de observação e o prazer, por sua vez, em muito dependem da curiosidade, do interesse do leitor, criança ou adulto. É isso que os mediadores deveriam estimular nos jovens leitores, e não tentar estimular a leitura através da reverência aos clássicos.

Dito isso, fica claro que a escola ou a biblioteca ideais trabalhariam com a leitura de cada indivíduo, caso a caso, já que a experiência pessoal conta muito para a fruição literária. Conta, mas não é tudo. Só quem se transformou em inseto pode ler Kafka? A criança que não quer levantar da cama para ir à escola não pode entender muito bem como se sente Gregor Samsa? Claro que pode. Ou estaríamos irremediavelmente condenados ao que chamo de “reality books”, praga análoga à dos “reality shows” televisivos. Um leitor de 15 anos, bem estimulado e interessado, pode, sim, entender qualquer livro de Thomas Mann muito bem. O fascínio de Aschenbach pelo jovem Tadzio... será tão distante assim dos adolescentes de hoje? Não poderia nos ajudar a entender Michael Jackson? Ou ajudar os adolescentes quando confrontados com situações análogas? É claro que, ao reler Morte em Veneza aos 20 lerá outro livro, e aos 30, aos 40... Ler é uma forma de viver outras vidas. A leitura pode e deve estimular a percepção de outras realidades, ajudar os jovens a sair da casca do egocentrismo que lhes é natural. O adolescente que está na fase do “ficar” tem muito a aprender e se deleitar com a tragédia sentimental de Emma Bovary.

É importante salientar, também, que, com frequência, o que o leitor encontra na leitura é um mundo bem diferente do seu. O que o atrai, muitas vezes, é exatamente o estranhamento, a possibilidade de, por meio dos livros, conhecer realidades (ou irrealidades) distantes.

E assim, voltamos à questão do início: por que ler? Certamente há inúmeras respostas a esta questão. Mas quase todas são variações sutis de um denominador comum: para sentir.

O grande romancista francês Marcel Proust nos ensina que “talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido.” Já a nossa Clarice Lispector aproxima o ato da leitura de uma “Felicidade Clandestina”, conto que se encerra com a constatação de que, ao conseguir o seu sonhado livro de Monteiro Lobato, a jovem e ávida leitora “não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”

Se o poeta escreve para fazer os leitores sentirem a dor “que eles não têm”, como já o disse Fernando Pessoa, o leitor busca não apenas reconhecer no texto lido seus próprios sentimentos, mas também vivenciar, por meio da leitura, sentimentos por vezes desconhecidos, que, com frequência, projeta nas palavras ou mesmo na figura do poeta, ou do famoso “eu lírico”. Assim, a leitura amplia não só a bagagem cultural, mas, melhor ainda, até o repertório emocional e a experiência sentimental do leitor. Lendo uma obra realmente significativa, aprende-se a sentir mais e melhor, refina-se o gosto, o prazer, o sexo e até o amor.

1 - Sírio Possenti. Pragas da Leitura. Série Ideias, n.13. São Paulo: FDE, 1994.
2 - Idem.

Frederico Barbosa é poeta e diretor executivo da POIESIS - Organização Social de Cultura / Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura

www.fredericobarbosa.com.br
www.poiesis.org.br


(Reprodução autorizada mediante citação da 'Brasil que Lê - Agência de Notícias')
Contato: agencia@brasilquele.com .

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Tags: Casa, Escrevivendo, Rosas, das, escrita, leitura, oficina

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