Projeto Escrevivendo

Crônicas de Maiara Rodrigues - Nossas Letras SESC Belenzinho 2016

Por Erica Franco e Renara Guerra

Coordenação: Karen Kahn

ASSOCIAÇÃO DE ASSISTÊNCIA AO PREFEITO COM CONSCIÊNCIA SOCIAL DEFEITUOSA (AAPCSD)

Terça-feira à tarde, calor e muita fadiga após horas consecutivas de aula. Caminho da faculdade até o terminal de ônibus, aguardo pacientemente na fila a chegada do busão, e, passados alguns ventos, o transporte chega e eu entro à procura de um lugar pra sentar.

Após minutos de movimento, trânsito e calor escaldante, de espécimen que faz suar até as entranhas, avisto de longe um cadeirante de aparência peculiar dar sinal para o ônibus. O coletivo para, o cobrador sai de seu aposento e ajeita as engenhocas do automóvel para que o rapaz de cadeira entre. O moço se direciona até o seu local de direito e com os dedos visivelmente atrofiados começa a alternar os movimentos entre fuçar o celular e assoar o nariz com um lenço.

Depois de algum tempo de contemplação do rapaz, não demora muito para eu perceber que já tinha topado com ele em algum lugar, e então me lembro de tê-lo visto andar pelos corredores da faculdade uma vez, porém com cabelo totalmente diferente.

Reflito sobre as atividades que para mim exigem pouco esforço, mas que para ele, com visível paralisia dos membros inferiores e superiores, exigem muito sacrifício, e logo penso no quanto estou diante de alguém com capacidade de enfrentamento surreal; um herói, eu diria. Um Super Homem de Assim Falou Zaratustra.

Por esse motivo me sinto mal em ter reclamado tanto do calor e de fadiga, noto que preciso descer no próximo ponto e direciono a minha atenção para o celular que vibra non-stop.

Passadas algumas auroras, um perrengue ou outro e etapas de relatórios concluídas, glorifico a chegada da tão pré-felicidade-esperada sexta-feira. Eis então que, em uma das minhas bisbilhotagens de três horas seguidas no Facebook, me deparo com uma notícia sobre o prefeito eleito da nossa cidade, cuja manchete diz que o político cometeu uma gafe ao chamar a instituição AACD de Associação de Crianças Defeituosas. Me lembro do cadeirante do ônibus, como num déjà vu.  Será que ele foi membro da AACD algum dia?

Devaneio sobre a notícia e rumino a escassez de consciência social do prefeito eleito. Compreendo então a necessidade improrrogável de uma Associação de Assistência ao Prefeito com Consciência Social Defeituosa (AAPCSD), essencial para o processo de tratamento de políticos portadores de deficiência intelectual, social e humana.

Afinal, é um ato de bondade doar um salário – proporcional a uns poucos centésimos de toda a fortuna acumulada ao longo da vida por meio da exploração de escravos - a uma entidade cujo nome nem é lembrado? Por que isso não foi pensando antes das eleições, no iate de Miami, no banquete de farturas ou no extrato bancário? Aliás, quem é defeituoso? O cadeirante do ônibus, os pacientes da AACD ou o prefeito sem consciência social?

                                                                                                                                                  Maiara Rodrigues

 

Sem trampo, liberdade, amor, família, pálio e pó

15 de Novembro de 1991, Proclamação da República Brasileira.

 

 Baile da Madrugada, Rua Manuel Madruga e sirene quebra-clima de uma viatura policial: “Desce do carro! Encosta no muro! Rápido, rápido! Agora!” - três jovens, quase que intuitivamente, levantaram os braços – “Nóis só queria dá umas volta no fiat... Nóis é de família, seu policial. Minha mãe precisa de mim. Ela só tem e...”. “Não quero saber! Entra no carro! Vai! Agora, meu!”

O caminho até a Casa de Detenção de São Paulo era longo, partia do abraço agasalhado da mãe em Itaquera para o desamparo mortífero do bairro do Carandiru. A reclusão era de quatro a dez anos, mas a pena de um dos rapazes seria encurtada em nome de um massacre que deixaria Jota Ê, o único sobrevivente do bando, com traumas pesados. Tão pesados que ele sentia náusea e sopapos no estômago só de lembrar. Tão cruéis que o jovem acumulou ódio e medo inesgotáveis contra o mundo e tudo aquilo que o remetia ao dia da chacina.

 

15 de Novembro de 2016, Proclamação da República Brasileira.

 

A euforia da madrugada deixou o jovem Jota Ê infestado de álcool e vontade de cheirar o mágico pó daquela viela da rua debaixo. O pó que o fazia esquecer o passado, as cobranças, o trampo e o antecedente criminal traumático. O pó que o deixava feliz sem ostentar aquela hilux zero quilômetro ou o mizuno de 1000 paus do Shopping Metrô Itaquera.

O rapaz não hesitou, e cheirou com tanta vontade que perdeu o fio da meada, do tempo, da consciência e do sangue que jorrava de suas narinas. Com tanto desejo que sentiu o prazer da dor como se fosse o mestre Tim Maia cantando os pesares de "Azul da Cor do Mar" numa arena lotada.

Extasiado, brisado e com o coração em 200 bpm, resolveu dar carona aos manos da biqueira. “Carona pra onde? Pra quê?” Não sabia, e nem queria saber, pois só pensava em apreciar a brisa e dar um rolê com os parças no pálio verde 1997 pago com tanto sacrifício.

Acelerou ao chegar à Avenida Campanella.

Na casa 542 da Rua Luís Pereira, Mariana – esposa de Jota Ê - agonizava a ausência de seu companheiro. "Ele ainda tá assinando a condicional. Se os polícia pegá de novo, eu não quero nem pensá. Nóis não tem grana nem pra fralda do Jotinha direito, imagina pra levá cesta nas visita. Ele precisa voltá logo!"

Uma, duas, três, quatro da manhã e nada do mano Jota. O estômago da patroa se apertava de tanta ansiedade e medo.

O celular dela toca, o coração acelera, ela respira fundo e desliza o polegar na seta verde: "Alô!" "A senhora se chama Mariana?" "Sim, sô eu!" "O seu marido, Jota Ê, acaba de ser detido em flagrante e se encontra no 34º DP." "O quê?! Não, não é possível! Deixa eu fala aí com ele, purfavô!" "A senhora vai ter que comparecer à delegacia pra falar com ele." - Mariana bufa alto e engole um apanhado de choro - "Tô indo aí...".

Ela pega o busão, desce no ponto em frente ao Distrito Policial e entra desesperada a procura de seu parceiro. "Cadê o Jota Ê?" "Ô, moço, como eu faço pra ver o meu marido?". Um policial guia a mulher até a cela do detento e os deixa a sós por alguns minutos. O jovem se debruça em lágrimas, implora por perdão e diz que só queria dar uma carona aos amigos no seu pálio verde e esquecer os problemas do trampo pesado. Mariana o abraça, diz que acredita nele e aceita as desculpas, mas não sabe o que fazer para visitá-lo agora e o que será dela e do molequinho recém-nascido.

“Sem trampo, liberdade, amor, família, pálio e pó por mais seis anos” – A Justiça Brasileira disse.

O Carandiru virou Parque da Juventude, o velho fiat e pálio verde foram sucateados e serviram de abrigo às ratazanas, mas a náusea, os sopapos no estômago, a chacina e os amigos esquartejados vieram à tona em forma de desespero e ódio contra si, a vida e o mundo.

O dia amanhece e o corpo de Jota Ê acorda frio e pendurado em um cadarço verde e amarelo.

Agora, Jota Ê é só mais um sem trampo, liberdade, amor, família, pálio, pó e vida.

Justiça pra quem? Proclamação da República pra quê?

 

                                                                                                                                                 Maiara Rodrigues

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