Projeto Escrevivendo

Duas leituras para conferências e trocas

 I

“Pequeno segredo”

 Por Jeanice Ferreira

Sou como uma dessas pedrinhas.

Pedrinhas soltas, entre lajotas

ou aquelas perdidas que ficam na terra entre os vasos.

 

Minha mão mexe na terra à procura de pedrinhas

branquinhas, que tinham certo brilho.

Procurava as escuras também

algumas bem mais brilhantes, mas as brancas fascinavam mais.

 

Eu fingia, ou alguém fingia junto comigo ou por mim,

que eram pedras preciosas.

Colocávamos em barbantes e fingíamos colares

que enfeitavam nossos brinquedos.

 

Sou como essas pedrinhas sem valor, que acredita virar colar.

 

Vivia num quintal entre pedrinhas e brinquedos.

Entre ser e fingir.

Via árvores de natal em cachos de uvas já chupadas

 e bichinhos de miolo de pão.

 

O bolinho da vó era uma delícia...

 

Entre as pedrinhas procurávamos também violetas portuguesas

que se transformavam em lindos minibuquês.

A florzinha vermelha virava colar de primavera

que combinava com a lajota do quintal.

 

Um dia a chuva veio e os brinquedos jogados no quintal

perderam o encanto.

As pedrinhas cada vez mais difíceis de achar.

 

O anel de pedrinha vermelha a mão da criança perdeu no meio da terra.

 

A mão foi crescendo e o tempo deixou pra trás

as pedrinhas, as violetas, os brinquedos e os colares.

 

O anel voltou pra mim e hoje descansa ao lado do anel do meu pai.

 

***

 

“Pequeno segredo” - segunda versão

 

Sou como uma dessas pedrinhas.

Pedrinhas soltas, entre lajotas

ou aquelas perdidas que ficam na terra entre os vasos.

 

Minha mão mexe na terra à procura de pedrinhas

branquinhas, com um brilho de lua.

Procurava também as escuras,

bem mais brilhantes, mas as brancas eram conchas no quintal.

 

Eu fingia, ou alguém fingia junto comigo ou por mim,

que eram pedras preciosas.

Colocávamos em barbantes e fingíamos colares

que enfeitavam nossos brinquedos.

 

Sou como essas pedrinhas sem valor, que acredita virar colar.

 

Vivia num quintal entre pedrinhas e brinquedos.

Entre ser e fingir.

Via árvores de natal em cachos de uvas já chupadas

 e bichinhos de miolo de pão.

 

O bolinho da vó era uma delícia...

 

Entre as pedrinhas procurávamos também violetas portuguesas

que se transformavam em lindos minibuquês.

A florzinha vermelha virava colar de primavera

que combinava com a lajota do quintal.

 

Um dia a chuva veio e os brinquedos jogados no quintal

perderam o encanto.

As pedrinhas, cada vez mais difíceis de achar.

 

O anel de pedrinha vermelha, a mão da criança perdeu no meio da terra.

 

A mão foi crescendo e o tempo deixou pra trás

as pedrinhas, as violetas, os brinquedos e os colares.

 

O anel voltou pra mim e hoje descansa ao lado do anel do meu pai.

 

Jeanice Ferreira

 

 

 

 II

A conferência e o lobisomem

Por Alessandro Atanes

Na noite do dia anterior à conferência sonhei que Roberto Bolaño me aconselhava a falar sobre os caminhos latino-americanos. – Que caminhos, pergunto no sonho, se ainda não nos desenrolamos dos labirintos de Borges e das casas da amarelinha de Cortázar? – Que presunção, respondeu Bolaño com o cigarro na boca, calmo, como nas capas de seus livros. Os caminhos da América Latina que devemos narrar são os caminhos para os infernos, continuou. Como águas-fortes, irreversíveis. Esqueça o que te disseram sobre sereias e lobisomens.

***

Do aeroporto ao quarto de hotel contei 271 avisos tipo “você está sendo filmado” em corredores, guichês, lojas, saguões, caixas-eletrônicos e vitrines, 89 deles antecedidos por “sorria”, dos quais 53 ainda com J, a maior parte, 37, dentro do próprio hotel. Dentro do quarto, era a janela que chamava a atenção, voltada para um pátio interno do qual nada se distinguia. Abro a janela para desvendar algo como se tentasse sintonizar um televisor antigo, apertando os olhos, mas uma neblina insistente atrapalhava a visão. A prometida vista até o rio havia se transformado em uma cegueira branca. No lugar, os sons da rua amplificados pela solidão da audição.

Ao invés de ver para fora, aquela massa branca e espessa convidava à reflexão. Fechei a janela e passei a rever tópico por tópico a conferência, a bibliografia e a iconografia, as referências teóricas. Talvez fosse a indisposição para o mundo que a neblina provoca, talvez a luz branca difusa, mas tudo pareceu um tanto sem nexo, forçado, até os comentários previamente elaborados. O pouco que chegava ao quarto dos sons da rua persistia, permanecia no cômodo como uma ladainha que chamava para fora dali. Decidi então caminhar pela noite profunda do inverno naquela cidade úmida e chuvosa à beira de um rio no hemisfério Norte.

Após ter buscado a velha estação e caminhado um pouco a esmo, optei por voltar cruzando um de seus famosos parques à meia-noite. Em poucos minutos, nenhum som da rua chegava mais a meus ouvidos, como se estivesse a milhares de quilômetros da civilização. Por sua vez, a neblina envolvia o parque, impedindo que as luzes da cidade o também atingissem. Alguns passos à frente percebo um movimento, parecia um cão, um galgo, mas um tanto estranho, o pelo era tão curto que parecia na verdade como se não tivesse pelos, e tinha a mania de tentar ficar sob as patas traseiras, olhando-me fixamente, com as patas dianteiras revoluteando ao alto como um lobisomem. Mas não um lobisomem de Hollywood, grande, feroz e peludo, mas um lobisomem de produção latino-americana, fraco, mirrado, com desespero no rosto.

Mas não tive medo, ele parecia me dizer: – Não tenha medo. Sou uma criatura da América Latina e aqui estou para guiar teus caminhos.

Não lembro como cheguei ao quarto de hotel. E parece que não desgostaram da conferência.

***

A conferência e o lobisomem - segunda versão

Alessandro Atanes

Na noite do dia anterior à conferência sonhei que Roberto Bolaño me aconselhava a falar sobre os caminhos latino-americanos. – Que caminhos, pergunto no sonho, se ainda não nos desenrolamos dos labirintos de Borges e das casas da amarelinha de Cortázar? – Que presunção, respondeu Bolaño com o cigarro na boca, calmo, como nas capas de seus livros. Os caminhos da América Latina que devemos narrar são os caminhos para os infernos, continuou. Como águas-fortes, irreversíveis. Esqueça o que te disseram sobre sereias e lobisomens.

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Contei do aeroporto ao quarto de hotel 271 avisos tipo “você está sendo filmado” em corredores, guichês, lojas, saguões, caixas-eletrônicos e vitrines; 89 deles antecedidos por “sorria”, dos quais 53 com J ao lado e 37 deles no próprio hotel. Já no quarto, voltada para um pátio interno em que nada se distinguia, era a janela que chamava a atenção. Abri-a para desvendar algo e parece que fiquei como se esperasse um televisor antigo sintonizar. Apertava os olhos, mas uma neblina insistente atrapalhava a visão. A prometida vista até o rio havia se transformado em uma cegueira branca. No lugar, os sons da rua amplificados pela breve hegemonia da audição.

Ao invés de ver, olhar para fora, aquela massa branca e espessa convidava a refletir. Passei a rever tópico por tópico a conferência, a bibliografia e a iconografia, as referências teóricas. Talvez fosse a luz branca que bruxuleava já difusa pelo quarto, mas tudo pareceu um tanto sem nexo, forçado, principalmente as piadas previamente elaboradas. O pouco que chegava ao quarto dos sons da rua espalhava-se pelo cômodo como uma ladainha fina de vento e chuva que chamava para fora dali. Abandonei as anotações e decidi caminhar pela noite profunda daquela cidade úmida e chuvosa à beira de um rio no inverno do hemisfério Norte.

Após ter buscado a velha estação de trens e caminhado um pouco a esmo, optei por voltar cruzando um de seus famosos parques à meia-noite. Em poucos minutos, nenhum som a mais da rua, como se houvesse apenas árvores, plantas e uma trilha. Por sua vez, a neblina envolvia o parque, impedindo que as luzes da cidade também o atingissem. Mais alguns passos e noto um movimento, parecia um cão, um galgo, mas um tanto estranho, o pelo era tão curto que era como se não tivesse pelos, e buscava ficar sobre as patas traseiras. Olhava-me fixamente e o focinho e as patas dianteiras revoluteavam ao alto, o que fez me lembrar de um lobisomem, não um lobisomem de Hollywood, grande, feroz e peludo, mas um lobisomem de produção latino-americana, fraco, mirrado, com desespero no rosto.

Mas não tive medo, parecia que me dizia: – Não tenha medo. Sou uma criatura da América Latina e estou aqui para guiar teus caminhos.

Não lembro como voltei ao quarto do hotel. E parece que não desgostaram da conferência.

19/5/2017

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Tags: SESC, Santos, caminhos, escrevivendo, escrita, leitura, oficina

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