Projeto Escrevivendo

Labirintos da escrita: Uma leitura de Borges e eu


O conto Borges e eu , de Jorge Luis Borges, se destaca por suscitar diversos questionamentos acerca da autoria, da relação entre o autor e sua obra e da própria escrita. Se o exercício da escrita supõe uma impessoalidade prévia, uma separação entre indivíduo e autor, como abordar um texto no qual todos os caminhos se confundem, criando um labirinto onde a única regra é a multiplicidade? Este trabalho se propõe dar continuidades às indagações geradas pela leitura do texto de Borges, tendo também em vista o jogo com o relato autobiográfico.

“ Não sei qual dos dois escreve esta página”, afirma um narrador enigmático na conclusão de Borges e eu. A página, um metatexto sobre a autoria, se encerra sem que seja possível uma conclusão. Autor, escritor e personagem se confundem em um hibridismo autobiográfico, no qual nada (ou tudo) é evidente.

A literatura é, por definição, o lugar onde se apagam as identidades e origens, onde se constrói uma nova realidade. Assim, o exercício da escrita supõe uma impessoalidade prévia, uma separação entre indivíduo e autor. Como, com base nessas afirmações, lidar com um texto como Borges e eu ? Como lidar com a natural tendência do ser humano de unir a figura do autor e sua obra, em uma única unidade? Serviria esse texto para corroborar essas afirmações ou apenas confirmar os hábitos dos leitores?

O texto de Borges suscita diversos questionamentos acerca do autor e da dissociação do narrador. Afinal, como estabelecer limites entre realidade, experiência individual, esboço autobiográfico e mera reflexão? A respeito das características de um suposto narrador, é possível observar um ar de experiência inferido aos fatos do cotidiano: “Eu caminho por Buenos Aires e me demoro, talvez já mecanicamente, para olhar o arco de um saguão e a porta envidraçada; (...)”. A realidade mimética simulada pela escrita confere verossimilhança ao relato, que num segundo momento, assume ares de biografia. Passa-se a descrever o comportamento e as atitudes de um Borges, que ao “tramar sua literatura”, justifica a existência desse narrador.

A naturalidade e concisão da página de Borges também chamam a atenção, pois, com base nas considerações de Benjamin em seu ensaio O narrador , são essas características que salvam a narrativa de uma análise psicológica e permitem sua memorização. Esse tipo de recepção sempre caracterizou a narrativa como uma arte que, apesar de toda a tentativa de distanciamento do narrador, sempre acabava carregando algumas de suas marcas pessoais, ou seja, não existe a possibilidade de que um texto seja total e completamente livre de influência daquele que o narra.

Caracterizar a voz que se enuncia em primeira pessoa no texto de Borges como um narrador é, entretanto, um primeiro passo na tentativa de mapear as diversas possibilidades de um texto que por si só já é labiríntico.

Se a escrita é a destruição de toda voz e origem, como assumir que a categoria de narrador vai se prestar à profundidade necessária requerida pelo texto? Não é a literatura o território onde o autor morre e onde nasce uma nova composição, livre de identidades? [1] É necessário que se caminhe na contramão da visão tradicional, que une autor e obra em uma única e sólida indivisibilidade, mas também sem negar a existência desse sujeito, verdadeiro catalisador da atividade literária. A separação entre autor e obra “não impede que ele tenha existido, esse autor real, esse homem que irrompe em meio a todas as palavras, trazendo nelas seu gênio ou sua desordem [2]”.

O que existe, na realidade, é a obra que se constrói na negação do autor, a linguagem que se sustenta, sem a necessidade do apelo biográfico. Podemos verificar o jogo com esta abordagem tradicional no texto de Borges a partir do momento em que o narrador afirma: “Eu hei de permanecer em Borges, não em mim (se é que sou alguém) porém me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros (...)”.Esse parágrafo também caracteriza a própria natureza do texto, que longe de constituir uma verdade única, se constrói como “um tecido de citações” [3] , como um território onde as leituras se fundem. Um texto nada mais é que “absorção e transformação de um outro texto” [4], ou melhor, de diversos outros textos.

O que se cria ao longo do texto é um eu, loquaz e indissociável de um Borges personagem, que afirma sua existência ligada a do outro . No epílogo da obra O fazedor, no qual está contido o texto Borges e eu, se encontra a seguinte citação:



“Um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo.

Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias,

de reinos, de montanhas, de baías, de naves (...) e de pessoas.

Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto

de linhas traça a imagem de seu rosto”.



Seria este parágrafo a aceitação (por parte do próprio autor) da natureza biográfica de sua obra, ou se trata de uma mera ironia, de um jogo com aquilo que é conhecido como pacto autobiográfico?

Antes de iniciar um questionamento acerca do jogo com o pacto autobiográfico, é importante questionar quais motivos levariam um homem a escrever sobre si mesmo e quais são os limites que se estabelecem entre rememoração e obra literária. A autobiografia é, por definição, um texto no qual uma pessoa real narra a história de sua própria vida, colocando em perspectiva os pontos que lhe interessam e explicitando a gênese de sua personalidade. Apesar disso, não perde seu caráter de obra literária e acaba colocando em jogo os problemas da memória, da construção de uma determinada personalidade e, por fim, a auto-análise [5]. Com base nesses argumentos, como conceder um papel adequado à autobiografia na obra de um autor?

A narração ou relato em primeira pessoa, na tentativa de mimetizar um fluxo verdadeiro de memória, pode servir apenar para engendrar o leitor numa teia de simulações, explicadas somente pela auto-sustentação da linguagem na obra literária. A autobiografia surge, assim, no terreno da desconfiança e lançando luz em determinados fenômenos que a ficção deixa inconclusos.

Mas por que seria possível cogitar um jogo com o pacto autobiográfico no texto de Borges? Não seria este texto um relato, apesar de digressivo, realmente autobiográfico? Alguns indícios presentes podem apontar para validação dessas indagações. Por exemplo, é possível observar a presença de um personagem homônimo ao autor, além da presença de um narrador que se confunde com este mesmo personagem, criando assim uma terceira face para a anteriormente explicitada duplicidade personagem-autor. Essa confusão, que aparece retratada com tanta clareza em Borges e eu , é o próprio cerne do gênero autobiográfico.

O escritor, entidade tão celebrada pela cultura ocidental, chega a ponto de reivindicar para si não só a autoria de diversas obras, mas a própria autoria de sua existência. A criação de um duplo ficcional, homônimo ao próprio autor, carregaria em seu interior o verdadeiro propósito da autobiografia. O escritor chega a última instância de criar a si mesmo enquanto personagem. Assim, pode-se dizer que Borges joga e rompe com o pacto autobiográfico, uma vez que mescla elementos referenciais com a própria construção labiríntica da voz autoral de seu texto. Os caminhos de Buenos Aires aparecem fragmentados e repletos de reminiscências pessoais, e colocados lado a lado com as questões suscitadas pela autonomia da linguagem literária.

Esse Borges, híbrido de personagem e autor, que recria a si mesmo e se observa, multiplica e extrai a raiz quadrada de seu texto simultaneamente [6]. É possível afirmar que esse tipo de operação se torna possível no conto Borges e eu devido aquilo que Calvino denomina “escrita breve, estilo cristalino, sóbrio e arejado” aliados a uma “maneira de narrar sintética e esquemática que conduz à uma linguagem tão precisa quanto concreta”.Essas características, somadas à forma breve por excelência que é o conto, são levadas ao extremo e potencializadas. A escrita breve que é conto constitui o espaço das bifurcações, das incompletudes, o espaço no qual “em última análise, se move nesse plano onde a vida e expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, (...), e o resultado dessa batalha é o próprio conto, (...) uma fugacidade numa permanência [7]”.

Essa discussão também dá margem a uma segunda interpretação: Não seria através da reconstrução do percurso de sua vida que um indivíduo encontraria as respostas para as perguntas que o assolaram por toda a sua existência? No caso do texto de Borges, vemos que o narrador, de forma análoga ao Borges real, já beira a cegueira (... me demoro, talvez já mecanicamente, para olhar o arco de um saguão e a porta envidraçada;...) e também se questiona a respeito do papel assumido pelo escritor em função de sua projeção no meio acadêmico: “... de Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico”. O narrador chega a acusar esse outro Borges de vaidade e de converter seus atributos em atributos de um ator. O que se vê nesse ponto é como o autor se converte em ator , fazendo uma alusão clara ao fato de que a imagem construída por um escritor não corresponde verdadeiramente ao indivíduo que carrega seu nome.É também importante salientar a carga semântica que carrega a palavra ator , ou seja, aquele que interpreta, que finge, que joga com uma natureza de personagem.

Nas palavras de M. Duras, “Existe sempre o suicídio na solidão de um escritor [8]”, ou seja, todo ofício da escrita é perpassado pelo fato de que, em prol da obra, parte da pessoa do escritor tenha que cair no esquecimento. O texto de Borges não mostra nada mais do que isso, ao construir um suposto narrador que dialoga com a personalidade, ou melhor, com a celebridade do escritor, já devidamente cristalizada pela fama. A voz autoral do texto de Borges reclama para si “as mitologias do arrabalde, os jogos com o tempo e com o infinito”, já alegando que tudo se perde e pertence à linguagem ou à tradição. É como se essa voz, esse duplo, estivesse relembrando ao próprio escritor que a única coisa que não perece é a própria escrita. Tudo está fadado ao fim, inclusive a autoria de um texto, a única coisa que irá permanecer será o que a escrita tornou tangível.

Uma outra leitura possível desse choque entre Borges e seu duplo pode ser feita tendo como base uma possível acepção de duplo, encontrada no Dicionário de Símbolos .De acordo com a perspectiva anteriormente citada, encontrar-se com seu duplo era fatalmente encontrar-se com a morte, ou seja, com aquilo que nos desafia e nos impele ao combate . O encontro entre Borges e seu duplo é o encontro entre o escritor e sua morte, não física, mais intelectual. Chega-se ao ponto em que o texto não pertence mais aquele que o escreve, mais sim aquele que o lê. O eu da enunciação é apenas um sujeito e não uma pessoa real. Mesmo o fato de o texto de Borges jogar com o nome próprio mostra como um nome é apenas uma referência vazia, possível de ser substituído por qualquer elemento presente na imaginação do leitor. O que existe não é o tempo da escritura e sim o tempo da leitura, o momento presente que se recria a cada vez que o texto é lido.

Um dos aspectos mais notáveis do conto de Borges é sua conclusão, que já foi anteriormente citada. O narrador, ao afirmar que não sabe mais quem escreve esta página, está na verdade jogando com a validade do próprio texto. “Estas páginas já não podem me salvar, talvez porque o bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, senão da linguagem ou da tradição”, constata o narrador, apontando assim que quando uma página é válida , escapa das mãos de seu autor. Borges e eu ganha projeção porque, ao final, a voz autoral que havia reclamado sua autoria no princípio, confirma sua perda, talvez para a linguagem e tradição .

O fato de Borges lançar algo de sua própria identidade no texto, através do espelhamento do nome próprio do personagem, também não deixa de ser uma alusão àquilo que é a espinha dorsal da autobiografia: a pergunta “Quem sou eu?”. Uma vez que o exercício da escrita parte de uma interiorização prévia para o exterior, é possível nesse percurso se abra um caminho para uma estrutura auto-reflexiva. O texto de Borges, no entanto, parte de uma auto-reflexão para a atingir um pólo mais abrangente. Seu verdadeiro questionamento é “quem é o autor” e não “quem é Borges”.

O rastro do escritor se dissolve ao longo do texto, não importando mais quem o escreveu. Um texto ganha relevância quando é inscrito na tradição ou pertence à linguagem Nessa medida, Borges e eu é um texto que, longe de responder à alguma pergunta, apenas orienta e gera novos questionamentos. Nenhuma resposta é dada, uma vez que a própria estrutura do texto se baseia na inconclusão e na própria indiferença gerada por qualquer tipo de certeza definitiva. “Não sei qual dos dois escreve esta página” diz o narrador, e isso é apenas mais um jogo da multiplicidade dos caminhos da escrita. Escrever pressupõe perda e ganho de si mesmo, ou seja, entrada e saída simultâneas no labirinto.

foto by flickr FotoRita

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Tags: complementar, leitura

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