Projeto Escrevivendo

NOSSAS LETRAS - II encontro Como Falar de Livros...

Por Natanael Fernandes

Karen,

O segundo encontro foi ainda mais prazeroso: começamos com a partilha dos comentários críticos escritos a partir de um dos livros da lista feita no primeiro encontro. Certamente foi um momento muito rico de troca, tanto que ele durou praticamente a oficina inteira, uma vez que não considerei justo interromper a fala de cada um em virtude de um tempo estabelecido.

A dinâmica se deu com leitura dos textos, seguida de comentários dos demais participantes. Optei por comentar os textos, um a um, somente ao final, para não contaminar o texto daqueles que ainda não haviam lido. Dada essa opção, fiz anotações de todas as leituras para que, finalmente, não deixasse de apontar alguma questão importante.

Dentre as muitas riquezas que frutificaram nesse momento, aponto uma que achei singular: após a leitura de um dos primeiros textos, uma participante comentou, acerca do texto daquela que havia lido, que achara muito bonito a autora ter se colocado no próprio texto, escrevendo em primeira pessoa do singular, pois ela, a depoente, ao contrário, sentia uma grande trava ao tentar expor-se em sua escrita e, assim, admira esta facilidade ou abertura no Outro.

Certamente, não pude deixar de retomar este comentário: a escrita em primeira pessoa é, de fato, escancarar-se e, mais do que isso: evidenciar-se e apossar-se do local discursivo da fala é um ato político. A temática desencadeou uma bela discussão sobre o ato da escrita e o que seria a pretensa impessoalidade que se busca em um texto, em detrimento de um eu mais verdadeiro.

Além disso, o momento da roda de leitura também estimulou uma discussão sobre a diferença entre leituras de prestígio e leituras periféricas que, igualmente, rendeu muito “pano pra manga”; assim como outra conversa sobre citações no próprio do texto ou, em outras palavras, sobre dialogismo e a apropriação do texto do Outro. Com isto, é claro, já mergulhamos de cabeça na obra do Pierre Bayard, Como Falar dos Livros que não Lemos? (2008).

Depois de um breve intervalo, finalizamos a oficina com a leitura do conto Sorôco, sua mãe, sua filha, de Guimarães Rosa (Primeiras estórias, 1962). Lemos, comentamos e retomamos uma discussão anterior sobre o fora da realidade (que seria a escrita) em oposição a um dentro da realidade (a vida real).

Observo que os conceitos fora e dentro, utilizados na oficina, partem de Maurice Blanchot, em O Espaço Literário (1987), mas também, e principalmente, de Peter Pál Pelbart, em Da clausura do fora ao fora da clausura: loucura e desrazão (1989).

Mais uma vez, estouramos as três horas, o que sinaliza algo surpreendente: o tempo da oficina finda, mas ninguém deixa o espaço enquanto não encerramos, de fato, os trabalhos do dia.

Abraços,

Natanael Peres Fernandes 

Exibições: 30

Tags: belenzinho, biblioteca, escrita, leitura, letras, livros, nossas, oficina, sesc

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