Projeto Escrevivendo

NOSSAS LETRAS - V Encontro do módulo CARTAS

       Tirinhas de André Dahmer

Por Laion Castro

Começamos o dia desvendando, no interior de um envelope roxo, duas tirinhas de André Dahmer sobre cartas de amor. A partir delas, falamos brevemente sobre a contradição entre amor e dinheiro, destacando a característica fundamental do dinheiro ("medida universal de valor", aplicada indistintamente a todo tipo de mercadoria) e sua indevida equiparação (ou superioridade em relação a) a afetos oferecidos ao ou partilhados com o outro.

 

Por que começamos assim? Porque este era o dia de falar sobre cartas de amor.

 

A partir da sugestão de leitura de "As relações perigosas", de Chaderlos de Laclos, assistimos ao trecho inicial do filme "Ligações perigosas", de Stephen Frears (1988), a fim de contextualizar a obra àqueles que não puderam lê-la. (Àqueles que têm acesso ao Netflix, indiquei outra produção que também consiste numa adaptação desse livro, chamada "Valmont".)

 

Feito isso, lemos a carta 105 do livro de Laclos, da marquesa de Merteuil a Cécile Volanges, e, a partir desse texto, começamos nossa discussão sobre cartas de amor a partir de uma perspectiva de desmitificação sentimentalista desse tipo de correspondência, destacando que a carta amorosa não constitui pura e simplesmente um gênero de confissão de sentimentos (o que seria, talvez, mais próprio de um diário), mas se caracteriza pelo fato de ser um texto dirigido a alguém e pensado para atingir os sentimentos desse alguém, ou seja, não se resume a uma manifestação pessoal de apreço e devoção, paixão e entrega, mas é atravessada por uma intenção de persuasão, de convencimento, de conquista -- em suma, de ação sobre o outro.

 

Lemos o clássico poema de Álvaro de Campos, em que este heterônimo de Fernando Pessoa afirma que "todas as cartas de amor são ridículas", e em seguida lemos uma ridícula carta de amor de Fernando Pessoa (inventor de Álvaro de Campos) a sua namorada Ophélia. Para além de apontarmos a contradição entre o que faz o poeta na condição de sujeito comum e o que diz uma das vozes poéticas criadas por ele, discutimos sobre o fato de a carta a Ophélia, apesar de parecer ridícula, parecer do mesmo modo adequada ao contexto de intimidade dos amantes. Além disso, após algumas leituras desse texto (cuja forma quase mascara o conteúdo), ficaram mais claras as intenções de Pessoa ao redigi-la daquela forma. Seguindo o conselho da marquesa de Merteuil, ele só escreveu como escreveu aquela carta para a e por causa da destinatária.

 

Ainda nesse primeiro bloco, ouvimos a canção "Mensagem", na voz de Maria Bethânia, a qual ainda recitou os versos de Álvaro de Campos no meio de sua interpretação, e debatemos sobre a letra e sobre como ela nos apresenta diversos aspectos essenciais da arte da correspondência, da importância da materialidade à angústia da espera, passando pela incerteza da mensagem e pela força da palavra escrita.

 

Voltamos do intervalo reaquecendo corações e mentes com duas canções, "Longe" e "O amor não sabe esperar", que tratam respectivamente da experiência do amante que, estando separado de seu amado, tem de lidar com a distância espacial e temporal. Na sequência, lemos uma linda carta de Machado de Assis a Carolina, sua então futura esposa. Nesse encantador exemplar da epistolografia, pudemos observar tanto os movimentos de argumentação bem pensada em função do outro (por exemplo, nos trechos em que ele se dedica a convencê-la a morar na cidade do Rio de Janeiro com a família) quanto os trechos de pura confissão amorosa.

 

Ao final da aula, aqueles que aceitaram o convite de participar desta atividade se ofereceram para ler as cartas de amor que haviam escrito ou recebido. Com isso, pudemos tanto nos aproximar mais do tema estudado quanto reparar na diversidade de formas possíveis das cartas amorosas (apesar de algumas expressões inevitavelmente comuns que povoam todas elas).

 

A tarefa da aula seguinte (de tema livre, mas com a sugestão de escrever/responder a uma carta de amor ou escrever uma carta aconselhando/pedindo conselho sobre o amor), que aconteceu no último sábado (17/9), foi proposta com a apresentação da noção de Plano de Texto, recurso que consiste numa maneira de organizar as ideias antes de começar a exercitá-las textualmente durante o rascunho.

 

Material utilizado neste encontro:

ASSIS%2C%20Machado%20de.%20Carta%20a%20Carolina.pdf

CABRAL%2C%20Aldo%20e%20NUNES%2C%20C%C3%ADcero.%20Mensagem.pdf

 

Exibições: 116

Tags: Castro, Karen, Kipnis, Laion, Letras, Nossas, SESC, belenzinho, cartas, escrita, Mais...leitura, oficina

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