Projeto Escrevivendo

Mandurema era seu nome de registro. Erro do escrivão, deveria ser Madalena. Residia numa kichinete, num bairro de classe média. O quarto-sala razoável, uma pequena cozinha, uma minúscula varanda e banheiro.

Eram 2 horas. Levantou-se do sofá-cama e abriu a janela. Uma das lojas insistia em chamar a atenção noturna com uma luz verde néon. A claridade artificial incomodou-a.

Costumava dormir satisfatoriamente. Solitária, entregava-se ao prazer do descanso. Nesta noite, imaginou cenas, sussurros prazerosos, vindos do seu vizinho. Não era adolescente, nem tinha ilusões. O dono do apartamento maior e espaçoso foi claro, como cantam os Triballistas: "não sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". Ela concordava convicta em aproveitar os bons momentos, conservar lembranças agradáveis, perdoar todos os deslizes do relacionamento. Acreditava na soma das experiências, gerando riquezas pessoais. Da janela, gritou para a noite e aos ventos, desabafando do 5o.andar.

- Por que este gostosão, de 1 metro e 80, corpo perfeito, bem sucedido, tinha que ser meu vizinho?

Acalmou-se e iniciou o autoflagelo: Convenhamos mulher, tu, uma pigmeia de 1m e 40, desproporcional, infância de cobranças injustas. Continuou, equilibrando-se: Persevero na conquista da felicidade, sorvo a última gota do mel. Sigo o lema: desistir jamais. Percebo o que de disponível no universo, tenho talento para capturar e aceitar, não como nos sonhos e não permitindo que os fragmentos da felicidade, na certeza de serem brumas, se desvaneçam.

Tinha uma irmã casada, era mais jovem, bonita e inteligente, 1m e 50. Uma de suas amigas comentava rindo: Se você é a alta da família e os outros? Temos que vê-los, com uma lupa?

Ela, a minúscula, não se importava com os comentários, muito maldosos e inúteis e que não lhe acrescentavam e nem a faziam sentir-se pior.

A irmã(zinha) afortunada era depressiva, de tudo reclamava. O mundo era injusto. Na opinião de Madalena, uma sonsa e metida. anos, quando solteira, desprezou um estudante interessado, ingênuo e iniciante. A pigmeia não deixou por menos: papou-o, desvirginou-o. O rapaz ficou agradecido. Casou-se com outra. Ela foi a madrinha do casamento.

Essas recordações não lhe aliviavam o incômodo. O vizinho a perturbara desde o primeiro encontro. Após alguns olhares maliciosos, ela pensou: "inacreditável, ele está me dando bola, o tipo gosta do exótico. Não deixaram passar a oportunidade. De imediato: abraços, beijos e, bem...,vamos poupar os detalhes. Era uma mulher recatada, ainda que não aparentasse.

Pela experiência, constatava que os encontros impulsivos e fogosos tendiam a esfriar. Alguns meses depois, notou a visita de uma menina linda, (belos aparatos físicos, confessadamente invejáveis, pouco mais de 20 anos), no apartamento ao lado. Aproximou-se com amigável falsidade, em menos de uma semana a jovem meiga fazia-lhe confidências: a pretensa mulher-sábia-pígmeia, que acreditava ser experiente no kama-sutra, corou.

Ficaram amigas. Entretanto, a vida pregou-lhe uma surpresa: apaixonou-se perdidamente pela garota confiante e pura. Sofria, a jovem era seu girassol sem sol” de 1 m e 65, da letra e melodia do conjunto de rock, o Ira; mergulhou numa angústia infinita.

Devido às noites de insônia, caminhava como um zumbi. Emagreceu, não mais a reconheciam, era uma sombra do passado. O vizinho e ex-amante, preocupado, bateu à sua porta, questionou-a e, assombrado, notou que ela não o reconheceu. Mandurema esqueceu-se do seu antigo objeto de desejo e de consumo, pois sua mente estava escravizada pelo único e grave amor platônico... seu segredo!

Leitores: última notícia de Mandurema: não se suicidou. Pelo contrário, sua chama interior recuperou-se, através da farta e nutritiva alimentação que sua amiga lhe oferecia, caridosamente. Esta desconhecia o motivo de tanto sofrimento.

Após a reabilitação, foi ao cartório e regularizou seu nome para Madalena. Na saída, caminhava pensativa; enquanto tocava no camelô a inesquecível Elis Regina: Oh! Madalena, o meu peito percebeu que o mar é uma gota, comparado ao pranto meu..... . Foi um presente.

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Tags: As, canções, escrevivendo, escrita, leitura, oficina

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