Projeto Escrevivendo

"Quando a coisa estava preta" Por Concha Di Pierro Celestino

Em 1976, quando eu e meu marido fomos estudar na Califórnia, quase todo o nosso contato com a família e os amigos era por cartas. Telefonemas internacionais custavam um desaforo e a internet ainda não era nem sonhada. Era tempo de censura cerrada aos meios de comunicação e às artes pelo governo militar, tempo de boatos correndo mais que notícias de jornal.

Fomos criando o hábito ansioso de procurar cartas do Brasil no meio da correspondência diária. Os meses iam passando, elas iam rareando. Numa tarde, retirei da caixa de correio a carta de uma colega de trabalho, a Eliete. Tínhamos trabalhado na mesma escola por quase dois anos. Gelei ao perceber que o envelope tinha sido violado. Havia uma larga fita adesiva colada à parte rasgada e, carimbadas em grandes letras vermelhas, as palavras: “Aberto pelo Itamarati”. Não era para deixar dúvida: estávamos sendo investigadas pela ditadura.

Eliete contava só no finalzinho da carta, como se isso não fosse o principal assunto, que nossa escola estava sob intervenção. Uma ativista política tinha sido presa quando transportava em seu carro grande quantidade de panfletos contra a ditadura. Acabou confessando que tinham sido impressos na gráfica do subsolo da escola. Houve prisões, medo e professores foragidos, mas a Eliete não citava os nomes.

Eu tinha que falar com ela, alertá-la sobre a violação da carta. Queria saber notícias de outro amigo, o Tonhão. Estranhamente, a Eliete nem o mencionava. Eu não podia telefonar, é claro, telefonemas também poderiam ser interceptados.

Enviei uma carta trivial ao Tonhão perguntando como ia a vida. A Eliete não escreveu mais e o pouco que vim a saber sobre o assunto depois, foi através de parentes que passaram por nossa casa, nos visitando.

Um desses visitantes nos trouxe, naquele mesmo ano, o disco recém-lançado do Chico Buarque, “Meus caros amigos”. A faixa que dá nome ao disco, um samba ligeiro, quase um chorinho, é uma carta gravada em fita para um amigo que está fora do país. Chico, o nosso grande cronista, expressa na canção a mesma vontade de contar algo importante e a mesma impossibilidade. Arrodeia, despista, fala do sol e da chuva, do samba e do futebol, do cigarro e da cachaça. Parece que desliza para a banalidade e o clichê de um país feliz. E, no meio de tudo, o alerta: “Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”.

Era surpreendente. Então, já se podia cantar “a coisa aqui tá preta”? Sabíamos que aquilo não passava de uma leve afrouxada na mordaça, um dreno para o que já não se podia estancar. Mas sentíamos um desafogo. O Chico cantando “a coisa aqui tá preta” era um país inteiro desabafando.

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Tags: canções, escrevivendo, escrita, leitura, oficina

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Comentário de Samia Schiller em 3 abril 2012 às 17:05

ô, Concha, achei esse texto tão emocionante. Ele faz um efeito danado no leitor.

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