Projeto Escrevivendo

QUARTO ENCONTRO DO ESCREVIVENDO FALAS DE AMOR

No início do feriadão e os escreviventes não arredaram o pé – que maravilha! No quarto encontro do Escrevivendo: Falas de Amor tínhamos a difícil tarefa de discutir os três poemas que postei para você na semana passada (Invocação, Noite Escura e I, de Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé), além de ler e comentar as produções dos escreviventes.

As primeiras horas da manhã serviram para a leitura critíca e análise dos poemas que serviram de centelha para a nossa proposta. Pois que, no último encontro, apenas lemos, juntos, os poemas (dois dos quais, musicados, que foram também “lidos” pelos ouvidos...), e os escreviventes foram para casa apenas com a sua interpretação. A idéia era que cada um pudesse, também, constituir o seu olhar, atribuir os seus sentidos, que influenciariam diretamente na escrita de cada um. Mas o momento de conversarmos sobre a leitura e a interpretação chegaria...

E chegou. O primeiro movimento foi o de tentar descobrir qual era efetivamente o problema de cada texto. Do que ele estaria falando? No Invocação, por exemplo, começamos circundando a idéia de uma negação à Deus, para nos aproximarmos de uma questão mais profunda, que dizia respeito à dúvida, não apenas em relação aos assuntos de ordem “espiritual”. Porque “Deus”, nesse contexto, poderia ser uma figura que diria respeito ao imaterial (Deus como o imaterial por excelência), e então o problema do texto poderia se relacionar com a busca, ou a dúvida, da materialidade. Problema esse que se relaciona diretamente com a escrita, não é? No Noite Escura, descobrimos que as figuras do “amado” e da “amada” se referiam a Deus e a Alma. Era, portanto, a descrição do encontro entre a alma e deus, com uma conotação extremamente erótica, através da experiência do misticismo em São João da Cruz. No poema de Hilda Hist, por sua vez, recuperamos a história de Ariana e Dionísio para entender, em primeiro lugar, como a ausência pode se corporificar e, mais, o que significaria dar um pulo em direção a humanidade. Entre o muito que fica de fora deste pequeno relato, concluímos essas leituras identificando o que os três poemas teriam em comum, para fazer a passagem para a proposta de escrita.

Há uma entrevista com um filósofo chamado Gilles Deleuze em que ele diz que a filosofia deixa de ser abstrata e se torna concreta quando entendemos o problema que um texto propõe. Verificamos, nessa atividade, que o mesmo ocorre com a poesia, com a literatura. Quantos de vocês já não ouviram alguém comentar: “poesia é subjetiva”, ou, “poesia não tem certo e errado, cada um dá a sua interpretação”... É certo que há muitas lacunas em um texto, lacunas que serão preenchidas pelo leitor, pelo universo do leitor, mas há também uma intenção, que se verifica na forma e nas escolhas que um poema faz. Há um percurso que o texto obriga, e há a leitura, que descobre nesse percurso as questões, o problema.

Para dar conta do tempo, sempre tão exíguo, fizemos a atividade de leitura das produções dos escreviventes em pequenos grupos. Juntavam-se três ou quatro pessoas para ler e discutir seus próprios textos, munidas também dos meus comentários prévios – que não foram utilizados como armas de leitura, felizmente. E acredito que a atividade foi bastante produtiva, já que o tempo se mostrou generoso, e os colegas também. Acredito, sobretudo, que o interessante foi poder ouvir comentários de colegas diferentes (dos mais quietinhos principalmente), além de garantir que cada um tivesse voz e cada texto, ouvido.

E terminamos, já com chuvas, no início da tarde, recuperando coletivamente as leituras, transfigurando pequenos grupos num coletivo só. Os textos da segunda proposta também serão postados aqui, depois das devidas revisões e do necessário tempo da reescritura...

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