Projeto Escrevivendo

 


TRANÇA ROSA



Reencontrei uma menina que conheci faz tempo. Foi hoje logo cedo, entretida com o espelho enquanto inventava uma trança nos cabelos. Penso que domingo não é dia para ter alguma pressa, fiz e desfiz todos os tipos de tranças por pura diversão. Numa delas, depois de pentear com um pente fino todos os fios da cabeça para trás - sem deixar que nem os mais rebeldes escapassem -, percebi que eu havia os puxado de forma exagerada, até mesmo compulsiva. Madeixas impecáveis presas no alto da cabeça onde começava a trança embutida, mas os meus olhos, de tão puxados, quase foram parar nas orelhas. 

Lembrei dos rabos de cavalo que minha mãe fazia para eu ir à escola. Fitas e laços enormes no alto da cabeça, cada dia um diferente com as cores mais fluorescentes que podem existir. Eu pedia: - Mãe, desaperta a maria-chiquinha! Vai ver é por isso que hoje meus olhos são tão amendoados, quando criança eu vivia com eles presos em penteados esticadíssimos, pra lá de criativos. Teve até uma garota do prédio que pedia para sua mãe fazer igual, só que a mãe dela era um fracasso estampado nos cabelos da garota -  que antes de tocar o sinal do recreio já estavam desmilinguidos, uma esquisitice que dava aflição -, sem falar que era mesmo impossível ganhar da exuberante originalidade de minha mãe.

As rosas não falam...

Comecei a rir diante do espelho, encarando meus olhos ultra-esticados. Rolou até uma pontada de dor de cabeça no alto da testa. Quanto mais eu mirava o espelho, mais eu ria, e quanto mais eu ria, mais os olhos ficavam puxados. Minhas bochechas quentes e rosadas moviam-se com os olhos rasgados, que transbordavam em intermináveis lágrimas de risos.

Saudade daquela menina de fitas nos cabelos. Não tenho mais os seus olhos na essência. Por mais que os estique e repuxe com a nostalgia dos penteados dos anos 80, hoje são outros olhos, com outros olhares, para outros horizontes.

Depois de uma avalanche de gargalhadas, ainda diante do espelho, em transe nostálgica, fui presentada com outra lembrança daquele tempo distante. A janela do apartamento da Vila Prel aberta numa tarde de sábado, eu toda sapeca e ensolarada, descalça, brincando com vestidopetit-pois, exibindo ao meu pai como eu sabia fazer o meu cabelo mudar de cor. - Quer ver, pai? Quer ver o meu cabelo mudar de cor? E eu saía do corredor, saltitando em direção à janela balançando os cabelos castanhos claros sob os raios de sol. - Estou loira, pai! Viu?

E meu pai todo tranquilo, sem camisa, curtindo aquela tarde casual, com aquele bigode "estiloso", tocando violão, cantando "As rosas não falam, as rosas simplesmente exalam o perfume que roubam de ti..." sorria e balançava a cabeça concordando comigo. E eu achava graça. Muita graça! Voltava para o corredor e admirava como, longe do sol,  o cabelo escurecia de novo feito mágica. Voltava para a janela, e para o corredor, janela, corredor, infinitas vezes. E meu pai ali no sofá, sem parar de tocar e cantar suas músicas, concordando com a cabeça em todas as vezes que eu falava: Né, pai?

Meu pai, como as rosas de Cartola, também não falava nada, mas demonstrava pela brincadeira algum apoio e incentivo com seus gestos - balançando a cabeça para frente. Contente, eu ria sozinha segurando a barra do vestido, pulando com olhar serelepe de criança, deslizando os pés pelo carpete fofo.

Desfiz as minhas tranças apertadas, como quem desfaz as malas voltando de uma viagem. Uma viagem insólita, essa. Que saudade daquela tarde em que eu achava que fazia mágicas solares. Pura felicidade da inocência feita de rosas atemporais, exalando através do tempo um doce perfume na minha memória entrelaçada. Hoje, carinhosamente, essas recordações passarão o domingo inteiro comigo, mais vivas que qualquer outra, enfeitadas num laço cor-de-rosa fluorescente.
!flaviasoufer.com!
vida que escorre toda vertiginosa

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Tags: canções, escrevivendo, escrita, leitura, oficina

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