Projeto Escrevivendo

ROTEIRO SENTIMENTAL

Alguns roteiros

Sempre iguais

Depois de rotineiros

Viram sentimentais.

 

 

Na metade do ano de 1958 meu pai , funcionário da General Motors em São Caetano do Sul, foi transferido para a fábrica, ainda em construção, em São José dos Campos.

 

Fomos então morar em uma nova cidade e tivemos que nos adaptar aos costumes locais.

Fui matriculada no Externato São José, colégio de irmãs salesianas, para continuar a segunda série do antigo curso primário. Assim continuaria em escola religiosa mas não iria mais a pé até a escola...

 

Estudava à tarde, assim pouco depois do meio-dia lá estava ela parada na porta de casa.

Seu Benedito descia e aguardava que as meninas chegassem. E lá vinhamos nós, uniformizadas de azul marinho e branco, com malas e lancheiras que ele acomodava na parte de trás da charrete.

Depois era nossa vez de tomarmos assento e aguardar a partida.

 

O charreteiro então tomava as rédeas e começávamos lentamente o trajeto rumo ao colégio. Havia uma subida a ser feita, por isso a lentidão.

Chegávamos ao largo da matriz, porque toda cidade do interior que se preza tem um largo da matriz! Era quase toda contornada para chegarmos a rua Sete de Setembro. Rua de paralelepípedos que acentuava o som das ferraduras do cavalo em sua marcha cadenciada. Como era gostoso quando o charreteiro fazia o animal acelerar os passos. Parecia diligência de filmes de cowboy!

 

Na porta da escola sempre havia outras charretes chegando com alunas. Não demorava muito e o sino tocava avisando que era hora de formar fila, rezar e depois seguir pelo extenso corredor rumo às salas de aula.

 

A volta para casa era feita a pé. Perigo quase não havia e além do mais outras amigas faziam o mesmo caminho. Seguíamos pela avenida Dr. Nelson D’Ávila, a rua do colégio , que depois da Praça Afonso Pena, passava a se chamar XV de Novembro e ia terminar... no largo da matriz.

 

Passávamos em frente à Livraria e Papelaria Excelsior e ao SAMDU. Chegávamos à Praça da Preguiça. Logo adiante a Rádio Clube São José dos Campos nos fazia lembrar dos finais de semana quando, a rua XV era fechada ao trânsito para a salutar prática do “footing” e ela oferecia o fundo musical com os sucessos do “hit-parade”.

 

Enfim, a praça da matriz, com sua fonte luminosa ao centro que, nas noites quentes de verão, fazia a alegria da garotada que corria ao redor e parava na direção do vento para receber os respingos da água.

Depois de atravessá-la era só descer ladeira abaixo, o que nos valia joelhos esfolados algumas vezes.

 

E foi assim durante algum tempo até mudarmos para um bairro novo, bem mais longe da cidade.

Agora o jeito era ir e voltar de ônibus... Mas tudo bem, afinal eu já era mocinha!

 

Mas... na metade de 1965,precisamos deixar aquele paraíso para papai trabalhar em São Paulo. Viemos morar no Cambuci, mais exatamente na Vila Monumento.

Tudo muito diferente... Passei a estudar na Vila Mariana e tinha que me deslocar de ônibus.

 

Vestida de azul e branco, como cantava Nelson Gonçalves, lá ia eu, normalista, junto com outras mocinhas da rua, rumo à av. Lins de Vasconcelos, pegar o ônibus bem em frente ao Cine Riviera. Isso era bom, pois já víamos o cartaz do filme da “matineé” que freqüentávamos aos domingos.

 

E a volta da escola? A pé claro! Quer coisa mais gostosa do que andar em bando, tendo acessos de riso? Olhar todas as vitrines disponíveis? Parar no portão da casa de cada amiga e esticar mais um pouquinho a conversa? Ia assim , de porta em porta, parando para conversar com todo mundo... Atrasava para chegar em casa. Era um tempo em que se podia fazer isso.

 

A cidade da infância, como eu, também cresceu. Está quase irreconhecível. Fiquei sabendo pelo Google que o largo da matriz hoje ganhou o nome do padre João que foi quem me deu a primeira comunhão.

E o caminho da normalista também está diferente. O cine Riviera, como quase todo cinema de bairro, cedeu suas instalações para as mais variadas atividades. Infelizmente o local ficou famoso quando o teto desabou durante um culto da Igreja Renascer que no momento ocupava aquele espaço.

A pé, de charrete, ônibus e de carro fui atrás do aprender...Hoje em dia ainda o persigo, só que agora vou de Metrô!

 

Maria Inês Zocchio em 16 de agosto de 2011

 

 

CRÔNICA SOBRE SÃO PAULO ATUAL

 

 Embora sua vocação maior não seja o turismo, São Paulo recebe um número considerável de visitantes , sejam eles do próprio estado, do país ou do exterior. E quem aqui chega não tem do que se queixar quanto às opções para se alimentar.

 

É possível provar iguarias de todos os quadrantes mundiais. Se o visitante não tem espírito gastronômico aventureiro encontrará com certeza pratos de seu local de origem e, interessante detalhe, nem sempre preparado por seus conterrâneos. Há, por exemplo, grandes chefs especializados em cozinha francesa que são nordestinos, acentuando ainda mais a vocação cosmopolita de nossa cidade.

 

Por outro lado, para quem tem um paladar ávido por novidades a cidade oferece festivais gastronômicos e workshops com renomados mestres da alta gastronomia contemporânea nacional e internacional. Esses sofisticados menus de degustação, no entanto, exigem do apreciador um poder aquisitivo substancioso que contrasta com a pouca generosidade das porções servidas.

 

No que diz respeito às padarias, nossa cidade tem características tipicamente paulistanas. É um estabelecimento que engloba produção, distribuição e prestação de serviços. Atendem à população em suas mais variadas necessidades. Desde o simples cafezinho no balcão, a média com pão e manteiga, até a festivais de sopas, nas noites frias de inverno. Parecem-se também com lojas de conveniência pois tem um horário de funcionamento amplo, chegando em algumas a ser ininterrupto. Além disso, as encontramos em todos os cantos da cidade.

 

Mas, a maior e mais democrática instituição paulistana, em termos gastronômicos, é sem dúvida, o pastel de feira!

 

Democrático sim, pois não há uma só feira-livre em nossa cidade, desde a famosa da Praça Charles Muller até à da mais distante periferia que não tenha uma barraca , de descendentes de nisseis ou não, fritando e vendendo pastéis.

 

Ao seu redor apinham-se os comensais.Há até aquelas que oferecem aos fregueses banquinhos para seu conforto.

 

E sempre por perto há o famoso vendedor de garapa e que hoje em dia vende também refrigerante.

Mas paulistano que se preza, saboreia seu pastel acompanhado de um legítimo caldo de cana!

 

 

Maria Inês Zocchio em 07 de setembro de2011

 

 

 

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