Projeto Escrevivendo

Uma Carta ( e uma resposta) Por Laura Guglielmo

uma Carta

 

(ano de 1987)

 

Júlio,

 

Voltei para casa sozinha naquela manhã como talvez se recorde. Dilacerada passei a noite lutando para achar palavras e argumentos que estes, foram condensados no seu teto.

Não adiantou . Você não me queria mesmo.

Não adianta tentar”. Era o que você repetia.

Por quê? Só o que podia pensar.

Só entendi mesmo que não adiantava mais nada, quando já tinha amanhecido e o jornal foi atirado no seu portão. O som de murro no chão, me deu um alerta que deveria sair de lá naquele instante.

Eu tinha passado do limite, do ponto, do amor próprio como você disse.

Ao implorar pelo outro, agora sei, ocorre uma transformação instantânea e irreversível no corpo do não amado. Essa fissura vira tatuagem que ao se olhar em um espelho está lá, para sempre.

No caminho para minha casa via as cores da cidade pulsarem forte, era verão e o mar estava azul, o reflexo da água nos meus olhos me davam vergonha da noite que tinha vivido.

O cheiro de maresia me era irritadiço nas narinas entupidas de água mais salgada que o próprio mar.

Cheguei no meu apartamento e fui direto para o quarto, fechei as janelas ásperas de pó e mais pesadas do que de costume, desliguei o telefone e dormi só de calcinha, debaixo de um cobertor picante de pura lã marrom.

Não queria mais acordar, mas fui acordada pelo cheiro de café que vem da padaria de baixo e que sempre atravessa minha janela; para mim, foi irresistível.

Me vesti e fui direto para lá. Sem dar bom dia a ninguém sentei num banquinho perto do balcão com minha xícara grande na mão. No primeiro gole meu estômago torceu e com a mão na boca fui rápido para o banheiro vomitar.

Você está de ressaca ou grávida? Perguntou a moça que limpava o banheiro já com panos e desinfetante de lavanda na mão.

Eu respondi que de ressaca não estava e amarela me olhei no espelho, tive certeza de que estava grávida.

Grávida de um filho seu.

Voltei para o quarto e me atirei na cama de novo, mesmo irritada com o cobertor picante fiquei olhando o teto não sei por quanto tempo, tinha que decidir o que fazer e estava sozinha.

Decidi fazer um aborto.

Liguei para uma amiga e logo tinha o endereço da clínica.

Alguns poucos dias se passaram, minha angustia só aumentava.

Tudo marcado.

Em um sábado de manhã fui bem cedo e sozinha. Não tinha nada que me fizesse mudar de ideia Estava com ódio do mundo, estava com ódio só de você.

Fui logo chamada para uma salinha onde paguei em dinheiro e depois me deram uma camisola de papel, pediram para entrar em uma porta azul no fim do corredor.

Era a sala de cirurgia, lá dentro tinha uma mulher, talvez enfermeira que me pediu para deitar sem olhar no meu rosto, logo depois saiu dizendo que o doutor estava só uns minutinhos atrasado.

Lá deitada em quarto rosa com cheiro de éter fiquei quieta buscando coragem em um ar impuro.

Sem nada para fazer fiquei olhando cada detalhe da sala, todo o ranço de culpa e alivio que viviam como parasitas na gordura da luz em cima da maca. Estava tudo lá, claro como o holofote ainda apagado que intimidava as mulheres que ali se deitavam de pernas abertas em uma falsa posição de parto ao som de sugadores.

Mas a pior coisa para mim ainda estava por vir, bem em baixo da maca havia um balde de metal cheio de sangue gelatinoso onde boiavam coágulos escuros.

Pulei da frágil maca e gritei: “Estou em um quarto rosa porque meu bebê que vai morrer é uma menina. Tenho certeza!”

Abri a porta azul e dei de cara com o médico que entrava. Ele estava de camisa branca aberta tinha o peito peludo onde um medalhão dourado em grossa corrente escorria, ele assobiava baixinho e cheirava perfume comprado em farmácia.

Mudei de ideia, vou embora.”

Júlio, quero que saiba que saí de lá com muita vontade de te ver e contar tudo isso mas sei muito bem da sua mudança repentina e definitiva como disse.

Desisti de você e aceitei ter o nosso filho.

Cheguei em casa tomei outro café, e não tive nenhum enjoo. Senti que estava certa, e resolvi escrever esta carta para te informar minha decisão.

Só vou colocar no correio no dia da minha mudança de cidade o que também decidi.

Pense em tudo isso.

Você sabe como me encontrar se quiser.

 

 

Diana

 

 

 

 

Carta por e-mail (reposta ...)

 

(Ano de 2010)

 

Diana,

É difícil começar dizer alguma coisa depois de tanto tempo. Hoje sei que esta minha dificuldade não se compara à que você passou por todos esses anos.

Procuro por você já faz um tempinho, mas há alguns dias alguém que conheço leu uma matéria sua no jornal e comentou, e aí foi fácil saber seu endereço eletrônico.

De forma breve, vou começar a partir da sua carta.

Quero que saiba que naquela noite tinha algo muito mais difícil pra te dizer do que tudo o que conversamos, ou brigamos, como você disse, mas eu não consegui.

A minha decisão não era do nada, nem assim tão repentina, como ficou parecendo.

Tudo começou dois meses antes daquela noite.

A verdade é que tive um caso com outra mulher. Foi curto, sem importância.

Mas, uma semana antes da noite em que nos separamos, essa pessoa foi à minha casa e me contou que estava grávida, que teria o filho e que ficaria comigo. Ela praticamente me pediu em casamento de uma maneira sedutora e poderosa. Na época fiquei louco e, de alguma maneira, me apaixonei por ela, pela paixão dela por mim.

Pode não parecer, mas mesmo prensado por toda a situação pensei muito antes de decidir.

Quando recebi sua carta, tive vontade de jogá-la fora, mas, sem ler, eu guardei em lugar seguro. Eu já estava morando com ela.

Foi há pouquíssimo tempo, na minha mudança, que encontrei a carta e, só então, a li.

Quero que saiba que fiquei muito feliz de saber que não fez o aborto. Ao mesmo tempo, estou me sentindo um monstro.

Se pudesse hoje voltaria no tempo, poderíamos talvez ter tido uma outra história, diferente desta que vivemos.

Quem sabe?

Você tem agora meu e-mail, adoraria te ver e conhecer nossa filha ou filho.

Aguardo seu retorno.

                                    

 

Júlio

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Tags: cartas, escrita, leitura, oficina

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Comentário de Samia Schiller em 15 maio 2011 às 9:03
Achei esse texto tão bom. A Carta e a resposta. As sensações da personagem que se misturam e se refletem no ambiente.

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