Projeto Escrevivendo

 

 

QUASE TRAGÉDIA NA BR 116

 

As férias de janeiro de 1984 começaram com uma viagem cheia de emoções perigosas em direção ao Balneário de Camboriú, SC; na época, refúgio predileto dos hermanos argentinos.

 

Eu, minha esposa e dois filhos, um com quatro e outro com nove anos, enchemos nossa perua Ford Belina 80 com as malas e tralhas e pé na estrada de má fama. Por volta do quilômetro 250, um acidente, conosco, por pouco não se transformou em tragédia real. Chuva, pista escorregadia, água empoçada e minha inabilidade em sair de uma situação de aquaplanagem ou hidroplanagem, por pouco não nos levaram para o outro lado do mundo.  Numa curva, a estrada virou para a esquerda e eu continuei em linha reta. Ao sair da pista o carro bateu na grade de proteção e voltou para o meio da estrada. Um precipício nos espreitava acintosamente. Nada sofremos de mais grave, mas o susto e a tremedeira que vieram depois a mim me marcaram para sempre. Talvez, porque eu vira o perigo iminente e nada pude fazer para evitá-lo. Nem rezar rezei. Indagados, os outros membros dessa viagem me afirmaram que, na lembrança, apenas um “sustinho”. (Observação: aquaplanagem é a falta de aderência dos pneus devido a uma camada d’água que se forma entre a pista e o pneu.)

 

Consegui levar o carro até um vilarejo. Um mecânico de beira de estrada verificou as peças danificadas e sugeriu comprá-las numa autorizada de Curitiba, para onde fui e voltei de ônibus. Farol novo, peças trocadas e umas “porradas” no capô deixaram a Belina em razoáveis condições de funcionamento. Com todo cuidado, prosseguimos viagem até a aprazível Camboriú, onde o filho mais velho nos aguardava ansiosamente.

 

Praias maravilhosas, descontração total, comida boa e barata nos proporcionaram férias inesquecíveis. Como minha esposa voltou antes para São Paulo, pude curtir os filhos gostosamente. Certo dia, só não fomos a uma praia de nudismo porque o carrão empacou numa subida mais “nervosa”. Enquanto usufruíamos as delícias da famosa estância “barriga verde” um funileiro repaginava o visual da Belina. Na ida, perto de Joinville, a polícia rodoviária nos parou, questionando sobre a parte amassada do capô. Já a  volta foi tranquila, com a parada de dois dias na cidade sorriso, a doce Curitiba.

 

Na memória, ficou o “medo psicológico”. Viajar com meu carro pela BR 116 nunca mais e já se vão 27 anos de que tudo aconteceu.

 

 

UM OLHAR SOBRE A PAULISTA

 

Moro no primeiro prédio residencial da Paulista, construído no início dos anos 1950, na esquina com a Rua Peixoto Gomide. No começo veio a fama, a glória e o esplendor. Depois, ficou a decadência física e moral. No final dos anos l990 cogitaram implodi-lo. Com bom senso e algumas reformas, a paz voltou ao Baronesa de Arary, seu nome de batismo.

 

Da janela do meu apartamento, tenho uma visão magnífica do MASP que, visto de cima, parece um imenso caixote suspenso no ar. Por detrás do MASP vejo um horizonte cinzento coalhado de arranha-céus e, lá no fundo as curvas e o verde da Serra da Cantareira. Bem do meu lado, uma pequenina floresta, um naco de mata atlântica encravado na selva de concreto que é São Paulo. Mirando para a esquerda, os olhos ardem, é o reflexo do sol tangenciando os vidros do prédio dos jesuítas, ao lado a igrejinha preservada. Mais para adiante vem a baixada do Pacaembu e lá no fundão o majestoso Pico do Jaraguá, cuidando de todos nós.

 

Volto meu olhar para o outro lado e me deparo com um enorme estacionamento, local que um dia abrigou a mansão Virginia Matarazzo. Quando a conheci, lá do alto, já estava um pouco decadente. Penso que muitos “matarazzi” tramaram sua derrubada. Um pouco para frente, surge o prédio da Gazeta, projetado para ser o mais alto da famosa avenida. Nem chegou até a metade do que iria ser. Ali, pelas mãos de um gênio em dose dupla, surgiu um cursinho preparatório, que, com ousadia e competência, virou uma grande rede de ensino. Um pequeno giro no pescoço e chego ao belo conjunto arquitetônico do Hospital Santa Catarina, com seus prédios, a capela e um jardim bem cuidado. Reflexo de uma administração eficiente, que uma freira dedica à obra.

 

Não dá para ver, mas dá para sentir a Casa das Rosas, exalando cultura e perfumando a mente e a alma de seus admiradores. Ela bem que poderia fazer um acordo com a “Porto Seguro” e incorporar a casa ao lado. A área ampliada se transformaria num imenso roseiral.

 

É dezembro, a Paulista se agita, piora o trânsito e aumenta o barulho. Logo acontecerá a festa da virada do ano, para muitos um instante de alegria e diversão a rodo. Para mim mais enxaqueca e pesadelo. Nesta passagem de 2010 para 2011 não quero e não vou viajar. Como enfrentar, com bom humor, a barulheira, que, por baixo, deve atingir uns 500 decibéis? Já sei: coloco uns protetores nos ouvidos, tomo dois comprimidos de Rivotril e durmo a sono solto, na maior paz e tranquilidade.

 

José Guimar, 19/02/2011

 

 

  

 

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Tags: aventura, escrevivendo, escrita., leitura, oficina, viagem

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Comentário de Samia Schiller em 25 fevereiro 2011 às 17:18
Parecia que eu estava com o José olhando a Paulista da janela.

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